Em DestaqueO Primeiro Brasil

Médica, negra e bissexual: conheça Mariana, personagem da ‘Falas de Orgulho’

Aos 26 anos, Mariana Ferreira entrou na igreja de véu e grinalda. Casou-se com o segundo namorado que teve na vida e realizou o “sonho de princesa” que passa pela mente de muitas jovens. “Naquela época, não achava que me relacionar com uma mulher seria uma opção. O que nós aprendemos desde cedo é justamente o oposto. E eu fiz tudo bem ‘certo'”, explica a médica de 35 anos. Mariana é uma das personagens da ‘Falas de Orgulho’, especial.

Foi somente depois de passar por uma grande perda que a Mariana passou a se perguntar qual era a vida que queria viver e se abrir para explorar os seus desejos e vontades. “Quando perdi o meu irmão, estava a terminar o meu casamento. Eu achava mulheres interessantes, mas nunca tinha-me relacionado. Eu tive uma educação bem machista e o meu círculo de pessoas próximas era completamente cis heteronormativo, inclusive no meu trabalho”, conta ela que é médica ginecologista e obstetra.

Mariana foi a primeira da sua família a entrar numa faculdade. De origem humilde, filha de pai metalúrgico e mãe empregada doméstica, ela viu nos estudos uma forma de mudar a sua realidade. Formada por uma das universidades de maior renome do Brasil, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a médica conta como se reconhecer bissexual mudou a sua profissão. “Acho importante me reconhecer num grupo. Além da questão da luta por direitos, me possibilitou também a ajudar outras pessoas. Eu atendo várias mulheres lésbicas, bis, homens trans e ouço muitas queixas desses pacientes que, por muitas vezes, passam por constrangimentos em atendimentos ginecológicos”, diz.

Sobre os seus relacionamentos com homens e mulheres, Mari pondera os pesos e medidas que advêm da sua sexualidade “Tem uma questão em ser bissexual: sempre que você está com um homem, as pessoas te vêem como hétero. E isso afecta quando você está se relacionar. Quando eu estava com meninas, por exemplo, muitas vezes não me sentia confortável para beijar ou dar as mãos na rua. Coisa que não passo quando estou com meninos.”, finaliza.

Confira mais detalhes na entrevista abaixo.

Entrevista com a Mariana

Como e quando você se entendeu o LGBT?
Quando eu casei, que foi com o segundo namorado que eu tive, não achava que me relacionar com uma mulher seria uma opção. O que nós aprendemos desde cedo é justamente o oposto. E eu fiz tudo bem ‘certo’: casei na igreja de véu e grinalda, o meu pai levou-me até o altar. Quando perdi o meu irmão, passei a reflectir muito sobre a vida e sobre o que eu queria viver. Nessa época, eu estava a terminar o meu casamento e foi quando comecei a me relacionar com mulheres. Eu já achava as mulheres interessantes, mas nunca tinha-me relacionado. Eu tive uma educação bem machista e o meu círculo de pessoas próximas era completamente cis heteronormativo, não só na minha família, mas também no meu trabalho. Hoje em dia, entendo-me como uma pessoa que pode apaixonar-se e relacionar-se com qualquer outra pessoa.

A sua sexualidade influenciou no seu trabalho de alguma forma?
Embora eu nunca tenha falado sobre isso “publicamente”, nas minhas redes sociais, todas as pessoas mais próximas sabem. Acho importante me reconhecer num grupo. Não só pela questão da luta por direitos, mas também por me permitir ajudar outras pessoas de uma forma mais sensível. Eu atendo várias mulheres lésbicas, bis, homens trans e ouço muitas queixas desses pacientes que, por muitas vezes, passam por constrangimentos em atendimentos ginecológicos. Eles se queixam muito, por exemplo, quando chegam para uma consulta e o médico pergunta “qual método contraceptivo que você usa?”, já presumindo a heterossexualidade. Na minha época da faculdade de medicina, eu não tive matérias que ensinassem sobre saúde para LGBTs, saúde da população negra. Acho que as coisas estão a começar a mudar, mas nós ainda temos muito a melhorar.

Muitas pessoas ainda olham para bissexualidade como um tabu. Você já sentiu esse tipo de preconceito?
Tem uma questão em ser bissexual: sempre que você está com um homem, as pessoas te vêem como hétero. E isso te afecta quando você está se relacionar. Quando eu estava com meninas, por exemplo, muitas vezes não me sentia confortável para beijar ou dar as mãos na rua. Coisa que não passo quando estou com os meninos. Certa vez, num carnaval, cheguei a ser empurrada por um homem que eu nem conhecia só por estar a beijar uma mulher num bloco.

Como você vê a luta LGBT actualmente?
A comunidade LGBT é muito diversa. Essa sigla carrega muitas lutas que são distintas entre si. Dentro da própria comunidade, temos vários tipos de relação. Por exemplo, um homem gay, dependendo da sua classe social, ou se ele é branco ou negro, cis ou trans, ele vai sofrer opressões diferentes. Acho que, cada vez mais, temos que nos enxergar como esse grupo heterogéneo e lutar colectivamente por respeito.

O projecto

‘Falas de Orgulho’ mostrará a jornada de oito personagens de diferentes idades, regiões, trajectórias de vida e religiões – e por trás delas, histórias de superação, preconceito e auto aceitação, passando por temas transversais às letras que formam a sigla LGBTQIA+ – que culminam na celebração de poder ser quem se é e na exaltação dessas vozes. O especial tem direcção artística de Antónia Prado, direcção de Washington Calegari e roteiro assinado por Carlyle Junior, com produção de Beatriz Besser. Rafael Dragaud é o director executivo e o Mariano Boni, director do género. O especial vai ao ar no dia 03 de Julho, logo após “Os Dias Eram Assim”, no Globo HD, posição 10 da ZAP.

Pode ainda aceder aos conteúdos Globo em Angola através do Globo ON, posição 72 da mesma plataforma.