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“Nos Tempos do Imperador”Cenografia retrata a Corte e o Brasil da segunda metade do século XIX

Conheça alguns figurinos que compõem a trama

Com cenários e ambientes que retratam o Brasil da segunda metade do século XIX, ‘Nos Tempos do Imperador’, obra escrita e criada por Alessandro Marson e Thereza Falcão, e com direcção artística de Vinícius Coimbra, que estreia já no dia 10 de Agosto, mantém alguns dos cenários utilizados na novela ‘Novo Mundo’, mas que sofreram as acções do tempo, como o Palácio da Quinta. O cenógrafo Paulo Renato, que também assinou a cenografia da primeira trama, que foi exibida em 2020 em Angola, é o responsável pelo trabalho da nova novela ao lado da Paula Salles. Nesta nova empreitada, eles têm o desafio de ultrapassar as três décadas que separam as duas novelas. Para isso, criaram novos ambientes para retratar os avanços do Brasil.

Além do Paulo Renato e Paula, a dupla conta com nove assistentes de cenografia e, somente no trabalho de pesquisa, a equipa ficou cerca de um ano dedicada às referências da época. Além de livros, imagens e fotos de sites especializados, telas do pintor Thomas Ender serviram de inspiração para o trabalho estético, por ter viajado pelo Brasil a partir da chegada do Dom João VI, retratar o país nas suas obras. “Neste período em que a novela se passa, era possível contar com a fotografia de 1860. Passamos meses esmiuçando fotos e aprofundar detalhes, que poderão ser vistos em pequenas pistas ou no fundo das cenas, o que enriquece a experiência do público”, conta Paulo.
Com uma área de 8,2 mil metros quadrados nos Estúdios Globo, a cidade cenográfica da novela vai reproduzir as regiões cariocas da Rua do Ouvidor, da Pequena África, interligada com o Cais do Valongo, além do Passeio Público e a orla, que foi urbanizada e passou a ser frequentada na época. A cidade foi separada em dois espaços muito distintos visualmente: o novo, urbanizado, comercial; e o da Pequena África, empobrecido, envelhecido, antigo e colonial. O primeiro é o que Dom Pedro II gostaria de traçar para o Brasil; o segundo, representa a realidade que vinha perpetuando-se.

Na trama, a estrutura urbana é ladeada por calçadas ainda de pedra e caixa colectora do esgoto pluvial e doméstico. Nesse período, com o processo de modernização, há fornecimento de gás para a iluminação da cidade, ainda que restrito a alguns pontos, como o Passeio Público e a Rua do Ouvidor. “Temos representações, gravuras, que dão a entender que a cidade pretendia-se mais europeia, mais bonita, e menos medieval. Mas, ao mesmo tempo, era tudo precário, o esgoto chegou depois da luz a gás. Era uma cidade suja ainda”, ressalta Paulo.
A época é marcada pelo início das edificações grandes e, por isso, na Rua do Ouvidor há construções de três andares, com uso misto: comércio em baixo e residência em cima, com dimensão bem próxima do real e reprodução das imperfeições encontradas nas referências. “Às vezes, beiram à desarmonia, mas tentamos traduzir isso e trazer como o registro de uma época”, reforça o cenógrafo.

A Pequena África é o núcleo culturalmente rico. “Estamos a fugir da imagem simples do negro escravizado, porque a diversidade da cultura negra nesse período da cidade era imensa. Poetas, advogados, uma pequena parcela que frequentou faculdade e teve espaço na sociedade viviam na região. As pessoas que circulavam na rua tinham uma identidade cultural muito forte, com origens em diversos locais da África”, conta o cenógrafo. Na região, o cenário está caracterizado com uma pintura mais degradada, com pouca manutenção. As construções têm muitos cómodos para uso multifamiliar, semelhantes a algumas visitadas pela equipa, com lotes compridos e coloniais. Nos cenários do núcleo, haverá poucos utensílios, pois os moradores da região não tinham quase nada. No entanto, os detalhes da arte mostram a riqueza da cultura africana. “A ancestralidade vai estar nos objectos, no altar, na religião”, enumera a produtora de arte Flávia Cristófaro. Ela destaca como curiosidade deste núcleo o trabalho do artista plástico de Pernambuco Luis Benício, convidado para ser o ghost sculpture que desenvolveu as máscaras na madeira do Dom Olu (Rogério Brito).

A novela vai contar também com cenários grandiosos, que ocupam boa parte do estúdio, como o Palácio da Quinta, onde Dom Pedro II vivia com a família, que ganha uma nova roupagem. No Segundo Império há bastante alteração, e o palácio fica mais sóbrio, pois passou por reformas ao longo dos anos, desde quando Dom João VI o encontrou. “Atendemos à mesma estrutura familiar, em um processo de passagem de tempo. Estou a levar a cabo a construção da mesma estrutura do cenário com outra interpretação, roupagem, forração, cortina e cor”, diz Paulo.

Na Quinta, há uma austeridade, como no ‘Novo Mundo’, mas dessa vez mais arrojada, pela seriedade e erudição do Dom Pedro II (Selton Mello), que achava um absurdo gastar dinheiro à toa. Nos utensílios de uso da família, predomina a prataria gasta. “Tudo que compro é sempre direccionado a mostrar a austeridade do Imperador. As peças em prata, por exemplo, não são limpas, para manterem um tom escurecido”, ressalta Flávia.

Dom Pedro II e Teresa Cristina tinham um acervo próprio dentro do palácio. Para reproduzir as peças, que até Setembro de 2018 podiam ser vistas no Museu Nacional do Rio de Janeiro, que incendiou, foram realizadas pesquisas através de documentos da Biblioteca Nacional, onde estão as descrições do museu. Muitos objectos foram reproduzidos na fábrica de cenários dos Estúdios Globo. “Alugamos algumas peças, mas 70% do material foi produzido nos Estúdios”, conta Flávia.

A estreia acontece terça-feira (10) de Agosto de 2021, às 19h45 no Globo HD, posição 10 da Zap. Pode ainda aceder aos conteúdos Globo em Angola através do Globo On, posição 72 da mesma plataforma.

Foto Divulgação Globo/ João Miguel Júnior