Opinião

A arte da sensibilidade selectiva: e os agentes policiais não têm direito à vida?

A nossa sociedade não admite e nem deve mesmo admitir casos de agentes policiais que saem por aí disparando contra os cidadãos como se de formiguinhas à baila se tratassem.  E nem que fossem.  Até mesmo as formigas têm direito à vida.

Por essa razão, todas às vezes, e no primeiro minuto, que se noticiam casos semelhantes, é forte e rápida a reacção, invadindo assim as redes sociais, principalmente, órgãos de comunicação e todos os meios possíveis demonstrando o descontentamento e exigindo justiça.  Da justiça exigida, uns apelam pelo desassociar do agente, outros à prisão do referido e alguns vão ainda mais longe exigindo mesmo uma morte por fuzilamento do agente. Sim! Não admitimos e nem devemos admitir casos em que os agentes policiais saem por aí disparando contra os cidadãos como se fossem formiguinhas.  Nunca! E sempre que isso acontecer, vamos exigir JUSTIÇA só para não dizer *JUSTICIA* que nem o clamor de onde toda Angola fala.

Porém, a nossa sociedade é tão atenta, que quando as coisas ocorrem na ordem inversa, exibimos a arte do silêncio, da ignorância, da arrogância e, principalmente, da insensibilidade.  Fechamo-nos, que nem um túmulo cerrado a sete chaves, ausentámo- nos de opinar e classificámo-nos em CSM (Cegos, Surdos e Mudos).

Vejamos: Não é de hoje casos de agentes policiais mortos por cidadãos de várias formas.  Na tendência de querer escrever esta reflexão com dados reais, demos umas voltas aos vários sites noticiosos do país e não só, para averiguar a situação. Das voltas dadas, encontramos milhares de casos e por isso, trouxemos um breve resumo.

Em janeiro de 2020, noticiava-se a morte de um agente policial à catanadas no rosto, no Bocoio. O agente foi assassinado durante uma operação na via pública, na província de Benguela, quando a sua unidade de patrulha procurava dominar um indivíduo, que empunhando uma catana, cometia agressões na via pública.

O agente, que era o primeiro subchefe da polícia no Bocoio, além de ser acatanado, foi-lhe retirada a pistola e efectuado-lhe 12 disparos, pelo mesmo marginal.

Em junho do mesmo ano, aos dias 10, os órgãos de comunicação noticiavam a morte de outro agente polícial, destacado na 47ª esquadra de Viana, assassinado por marginais, que efectuaram disparos a queima roupa. O agente tinha 44 anos de idade.

Em Agosto daquele mesmo ano, 2020, os órgãos voltaram a noticiar a morte de mais um agente da PN, destacado na 40ª Esquadra do Comando Municipal de Cacuaco, que foi alvejado com disparos de arma de fogo, por meliantes, num momento em que a vítima, junto de seus colegas, fazia o trabalho de patrulhamento apeado, quando tomaram conhecimento que um grupo de assaltantes pretendia roubar uma motorizada de um transeunte e tentavam então intervir na situação. O agente tinha 31 anos de idade.

Já em fevereiro do presente ano, 2021, os órgãos noticiavam a morte de outro agente policial à facada, durante um assalto. O agente, 3º subchefe destacado no departamento de Segurança Pública e operações do Comando Provincial da PN da Huíla, de 55 anos de idade, foi morto na via pública, na cidade do Lubango, por supostos marginais, quando tentava reagir a um assalto, ao sair de casa para o trabalho.

O caso mais recente e ocorrido no fim da semana passada foi o do agente que perdeu a vida em confronto com marginais, quando tentava socorrer, na via pública, estudantes que estavam a ser assaltados, por volta das 19 horas, da sexta-feira, 12.03.  O agente, especialista em Cinotecnia da Polícia Nacional de Angola, de apenas 27 anos de idade, foi morto a tiros, na via pública, por marginais.

Estes são os poucos dos milhares de casos ocorridos no país, há anos. Até a data da segunda ocorrência mencionada neste texto, aos 10.06.2020, a PN totalizava 38 agentes mortos em todo o país, nos últimos três anos, ou seja, 2017-2020.

 Aqui é onde desdobramos a nossa péssima arte da sensibilidade selectiva! Infelizmente, essas mortes, de policiais, nunca causaram/causam repercussões para a nossa sociedade. É como se os agentes policiais não fossem seres humanos, como se não tivessem famílias e amigos, como se de simples objectos se tratassem e como se fossem feitos para morrerem à baila, nas mãos de quem quer que seja ou queira.

O incrível e assustador é que, quando as coisas ocorrem na primeira ordem, agentes matando quem quer que seja, levantam-se vozes e vozeirões, estampam-se rostos e rostões reprovando a atitude.  Influenciadores políticos, sociais, económicos e tantos outros que a nós influenciam até mesmo com apenas um like.

Essa é a prova de que, a nossa sociedade vive uma terrível arte da sensibilidade selectiva, onde sentimos pela morte de uns e aplaudimos pela morte de outros e, depois de tudo, quando achamos conveniente, declaramos o direito à vida a todos, sem distinção de ninguém.

Que paradoxo dessa sociedade! Sensibilizamo-nos, quando nos convém, com os que nos convêm e somente para quem nos convém. Reflictamos e entendamos a nossa atitude diante de todas as situações vivenciadas.

Armemo-nos mais de emoção, empatia, compaixão, apreciação, percepção, senso, sentido, delicadeza, susceptibilidade e melindre, e desarmemo-nos da arte da sensibilidade selectiva.

Todos os seres vivos têm direito à vida, independentemente da raça, cor, língua, status social ou seja  lá o que for.

Os agentes policiais também têm direito à vida, e devemos reprovar com a mesma medida, intenção e força, quando um deles é morto.

 Olímpia Salucundji, Professora e Comunicóloga.