Opinião

O discurso político precisa incluir os meios de comunicação de massa- OPINIÃO

O prodigioso desenvolvimento dos meios de comunicação social, ao longo do século XX, modificou todo o ambiente político. O contacto entre líderes políticos e sua base, a relação dos cidadãos com o universo das questões públicas e mesmo o processo de governo sentiram, e muito, o impacto da evolução tecnológica da média. Já no começo do século, fez-se notar a presença do rádio, secundado pelo cinema, que se mostrou um importante instrumento de propaganda. Os novos meios exigiam novos tipos de políticos, que soubessem como utilizá-los. Cada um à sua maneira, por exemplo, nos Estados Unidos da América, Franklin Roosevelt, e, na Alemanha, Adolfo Hitler tornaram-se símbolos da política da era do rádio.

Entretanto, a televisão reorganizou os ritmos da vida quotidiana, os espaços domésticos e, também, as fronteiras entre diferentes esferas sociais. Como demonstrou Joshua Meyrowitz, a média electrónica, sobretudo a TV, rompeu a segmentação de públicos próprios da média impressa e contribuiu para redefinir as relações entre mulheres e homens, crianças e adultos, leigos e especialistas.

Aprofundou as transformações no discurso político, de certa maneira unindo o sentimento de intimidade, transmitido pelo rádio, com o apelo imagético próprio do cinema. Evidentemente, os cientistas políticos não puderam ignorar mudanças tão significativas e manifestas. Mas, em grande medida herdeiros de modelos que nascem ainda no período pré-mediático, têm dificuldade em incorporar de forma expressiva os meios de comunicação às suas reflexões.

Longe de se tratar de um caso isolado, a postura é característica da grande maioria dos estudos políticos, tanto nacionais quanto estrangeiros. O recorte da “política”, que a ciência política faz, inclui governos, partidos e parlamentos; dependendo das preocupações específicas e das inclinações de cada um, também participam movimentos sociais, militares, elites económicas ou a igreja. Os meios de comunicação de massa ficam (quase) invariavelmente de fora. Ou então são vistos como meros transmissores dos discursos dos agentes e das informações sobre a realidade, neutros e portanto negligenciáveis!

OSVALDO MANUEL, COMUNICOLÓGO E JORNALISTA.