Opinião

“Por que as manifestações e não a desobediência civil…?” – Opinião

OPINIÃO: “O DRAMA DAS MANIFESTAÇÕES: DE QUEM É A CULPA?”

  1. PONTO PRÉVIO

Sou o Sebastião Afonso, jovem empreendedor e mentor financeiro.

Como qualquer jovem angolano também vivi por toda série de limitações, algumas até, inimagináveis se olharmos para o retrovisor do tempo.

Sempre valorizei a trabalho humilde, a resiliência, o espírito de iniciativa, a ousadia, a excelência e a capacidade de lidar com as várias adversidades, apesar das circunstâncias.

Enquanto jovem, ‘financial influencer’ e um observador da política socioeconómica do país e, sobretudo, pelo facto de nossas vidas estarem vinculadas, inelutavelmente, a tais decisões estratégicas, venho observando com alguma preocupação o rumo que a minha geração vem trilhando para escrever os seus feitos nos anais da história do país.

O presente artigo, longe de ser um repúdio às manifestações e outros movimentos sociais que vêm ocorrendo um pouco por todo país, ou uma antítese aos procedimentos operativos levados a cabo pelas nossas forças de ordem e segurança, visa apresentar uma visão holística, dualista, desapaixonada e além de qualquer estigmatização sobre o fenómeno em destaque.

Vale lembrar que o presente é uma artigo de opinião que vincula única e exclusivamente o autor que, desprovido de qualquer espécie de dogmatismo, radicalismo ou fanatismo está aberto a sugestões e outras contribuições até mesmo aquelas que se mostrarem, ‘a priori’, opostas à génese da abordagem.

Se os problemas que temos vivenciado afectam toda a cadeia populacional do país, por que apenas os jovens parecem reivindicar?

  1. POR QUE OS JOVENS? E POR QUE AS MANIFESTAÇÕES?

47% da população angolana, 77% da África Subsariana e cerca de 25% da população mundial é jovem. É muita gente miúda!

Se recuarmos há cerca de 6 décadas, veremos que a juventude sempre jogou um papel preponderante da nossa história. Eles já foram a ‘voz do povo’ e, por extensão, a voz de Deus. Travaram diversas lutas, sofreram represálias é um série de intempéries em função do bem mais preciso de um ser humano, quem saber de todo ser vivo: a liberdade.

Neste enquadramento, os episódios que vêem ocorrendo parecem ser uma extensão da luta travada no século passado, um reavivar dos anseios, alegadamente, reprimidos por conta das políticas, aparentemente, ‘anti-juvenis’. Não obstante a tais situações, é visível perceber o quanto potencial tem a nossa juventude. Os jovens são mais emotivos, impulsivos, directos e gostam de ver realizadas as suas aspirações aqui e agora, tornando-se, portando, porta-vozes das classes mais frágeis e ponderadas da Sociedade (crianças e adultos, respectivamente).

Mas, e por que as manifestações e não a desobediência civil, por exemplo?

O direito à manifestação é um direito consagrado na nossa Constituição (n.°s 1 e 2 do Art. 47.° de CRA).

Diferente da desobediência civil, em nossa opinião, a ‘manifestação’ é a mais visível forma de indignação… na luta pelos direitos humanos (auto-adquiridos) e aqueles conferidos pela Lei. Adicionalmente, nos últimos tempos, os jovens têm vindo a perceber o poder do associativismo, basta vermos as várias associações que têm surgindo ligados aos vários domínios da sociedade. Assim, organizar-se, com o apoio das redes sociais, tornou-se trivial!

Se, até então, não há vestígios de quaisquer pontos de ruptura entre os jovens e a classe governante, afinal onde está o problema?

  1. EM BUSCA DAS REAIS CAUSAS DAS MANIFESTAÇÕES

O Estado é um ente de bem e enquanto tal, tem o ‘dever’ de satisfazer as necessidades colectivas, tais como a necessidade de segurança, saúde (assistência médica e medicamentosa), educação, água, energia. Os cânones da ciência moderna, curiosamente, não colocam neste pacote de necessidades de emprego nem de habitação, pois para estes, tais necessidades podem ser satisfeitas na sua plenitude pela classe empresarial privada, transferindo para a esfera do Estado, a criação de um ambiente de negócios favorável para o fomento da iniciativas privada e o robustecimento do ecossistema empreendedor.

Afirmar que o Estado tem vindo a criar um ambiente favorável para que os negócios floresceram, não é de todo sensato. Basta olharmos para a taxa de mortalidade das empresas (TME) cujos dados oficiais apontam para 70% (ou seja, 70 em cada 100 empresas criadas no Guiché Único da Empresa, morre antes do segundo ano económico).

Infelizmente, mais do que a necessidade de vermos uma Angola melhor, também temos visto que as manifestações vêm infectadas de algum egoísmo e muitos dos seus protagonistas destilam um ódio crónico face à classe governante. Tal situação leva-me a questionar se a legitimidade das actuais reivindicações são movidas pela ‘necessidade’ ou, com toda sinceridade que se impõe, pelo ‘imediatismo’.

Já perguntou-se se ‘as pessoas que realmente necessitam, manifestam-se?’ É desconcertante dizer isso, mas a resposta é ‘negativa’! Vale ainda ressaltar que, infelizmente, a minha geração pouco valoriza os micronegócios, pois muitos jovens desconhecem o potencial financeiro deste tipo actividade comercial e almejam empregos de ‘ternos e gravatas’ como Banca, Seguros, Finanças e exploração petrolífera.

É sabido que a educação sempre constituiu um problema crítico em Angola e em muitos países do Mundo. Também é público que as políticas educacionais gizadas pelo pelo MED (Ministério da Educação) e MESCTI (Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação), carecem de reformas profundas. Se estamos certos de que nesta equação, a variável ‘Estado’ é mais difícil de ser alterada, por que não, alteramos a variável que depende de cada um de nós? Sim: a excelência não depende, exclusivamente, de termos um óptimo professor ou estudarmos nos Estados Unidos de América, Canadá, Japão, Finlândia, Rússia, Brasil, Ruanda, Cuba, Espanha, Itália ou Inglaterra. Ela depende do nosso compromisso por uma educação crítica, inovadora, independente, honesta (menos trapaceira ou ‘cáluba’).

Quanto estão atentos aos vários cursos disponibilizados de forma grátis por várias instituições nacionais (XikolaYetu) e internacionais (Universidade de Stanford, Yale, Harvard, por exemplo) sobretudo, nesta fase de Pandemia?

Respondamos com toda a sinceridade: “O que é mais importante: o resultado ou o processo?” Infelizmente, muitos de nós, jovens, almejamos uma vida de prosperidade e abundância, mas pouco ou nada fazemos para tornar nossos sonhos realidade. Muitos de nós queremos ter uma vida de luxo, mas estamos mais preocupados com o sucesso dos outros (cantores, deputados, empresários), ao invés de começarmos a escalar o nosso próprio caminho.

Enquanto ‘financial influencer’ e mentor financeiro tenho dito aos meus ‘franqueados’ que:

a) “A riqueza é ilimitada e não é possível monipolizá-la”;
b) “A riqueza é abundante e deduzida de uma fonte inesgotável, portanto, ela tem uma efeito multiplicador”;
b) “O universo é uma empresa de delivery, se fizermos o pedido certo e indicarmos o endereço certo, nós receberemos o que cabe a cada um de nós”.

Tudo isso, demostra que as reais causas por detrás do drama das manifestações não é por culpa exclusiva da classe governante é um conglomerado de situações em que cada um de nós também faz parte. E digo “também”, porque, de forma desonesta, sempre julgamos a nós mesmos pelas intenções e aos outros pelas suas acções.

Aos nos colocarmos como parte do problema e da solução tornamos o diálogo mais inclusivo e participativo, criamos ponte para a conciliação das partes, mitigamos a probabilidade de excessos ou o uso desproporcional das forças da ordem e segurança. O caminho é longo e penoso, mas é possível trilhá-lo de mãos dadas.

  1. À GUISA DE CONCLUSÃO

Muito poderia ser arrolado aqui, portanto, não é nossa intenção esgotar o assunto aqui nestas entrelinhas, o que poderá ser um motivo de reflexão de todas as forças vivas do país.

a) Estimado, “Qual é o seu projecto pessoal de vida?” “Quais são os seus sonhos?” “O que você tem feito para persegui-lo?” Defina-o hoje mesmo! Eu posso ajudá-lo!

b) Estejamos dispostos a contribuir. Com ideias, sugestões e oportunidades de melhorias. Ilustres governantes, lembrem-se que “as críticas são consultorias gratuitas” e óptimas fontes de redesenho de processos.

c) O empreendedorimso consiste em resolver problemas dos outros e ser pago por isso. Que problema você pode resolver?

d) A força desproporcional da nossa força de ordem e segurança, as detenções arbitrárias adicionada ao sentimento de indignação da classe juvenil, mais do que conter o fenómeno, acaba criando uma bolha de violência sem precedentes que vem prejudicando não só os partícipes destes actos, como também pessoas alheias e outros transeuntes.

e) O ódio que destila em muitos jovens manifestantes bloqueia a sua criatividade, limita as oportunidades disfarçadas e ao invés de prejudicar seu oponentes, prejudica profundamente as suas vidas. O cérebro é tão inteligente que, ao entender que ser rico é um perigo, protege-nos contra este ‘pseudo-mal’.

f) É importante ressaltar que muitos de nós nunca fomos e jamais seremos arruaceiros, mas facilmente tornamo-nos dissidentes dos nossos sonhos. Por isso, há mais jovens que desistem dos seus ideais do que quedas que ‘realmente’ fracassam.

e) Que tal enriquecermos? Mas, você está disposto a enriquecer os outros?

g) Seja autodictada e mais: seja o professor que você gostaria de ter, invista na sua formação, aproveitemos os vários cursos disponíveis em plataformas como LinkedIn, Coursera, Udemy, TED, SoloLearn, YouTube.

h) Seja optimista. O optimista veja a oportunidade na adversidade, o pessimista veja a adversidade na oportunidade. Reinvente-se em tempo de crise.

i) Acredite que você também pode enriquecer e de forma honesta. Não há mal algum você desejar prosperidade e abundância. Se assim for, então, não é lógico e nem faz sentido algum abominarmos o rico ou a riqueza.

j) É necessário que o Estado reveja o seu papel enquanto provedor de satisfação das necessidades colectivas e criador de condições de um saudável ambiente de negócios e do ecossistema empreendedor. Adicionalmente, é urgente que se reduza a ‘estadualização’ da empregabilidade, criando políticas concretas para o robustecimento do sector empresarial privado.

k) É fundamental que as Instituições responsáveis pela força e segurança do nosso país sejam revestidas de humildade para reverem a sua actuação diante do actual fenómeno e definirem estratégias justas, proporcionas e abordagens mais pedagógicas do que punitivas e/ou sancionatórias.

l) Lutemos pela mudança, por uma Angola melhor, defendamos os nossos direitos, mas antes de tudo, sejamos nós mesmos a mudança que queremos ver no mundo!

Um forte abraço e feliz o 45° Aniversário da nossa Independência!

Por: Sebastião Afonso, ‘Mentor Financeiro’