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A morte de Sérgio Rescova na visão de um filósofo: “o nua wu dila kewu vayikanga ma mbote ko”

Por: Anfonso Nkuansambu

Antropólogo e Docente universitário

O desaparecimento prematuro do jovem e sagaz académico e político da praça angolana, Dr. Sérgio Luter Rescova Joaquim, então governado da província do Uíge está a suscitar vários comentários e especulações nos diferentes ambientes sociais, com maior realce nas redes sociais, nos táxi, nas igrejas, nas restaurantes, nas ruas, nas famílias, etc. Os comentários giram em torno das causas que levaram prematuramente ao desaparecimento de um jovem apenas 40 anos de idade, mas com muita maturidade académica, política e social, que tinha tanto para dar ao seu belo pais, aliás, comprovou e convenceu os atentos e os distraídos, enquanto académico, 1º secretário Nacional da JMPLA, Governador de Luanda e do Uíge respectivamente. Na busca pela resposta sobre as possíveis causas da sua morte, vai-se assistindo uma onda de especulações, alguns concordam que é mesmo a COVID-19, que vitimou o querido filho de Angola, outros acham que foi envenenado entre os camaradas do executivo, outros ainda vão mais além e acusam a província que o viu a nascer com as práticas de feitiçaria. Será que isto não poderá alimentar o tribalismo? Ou são apenas comentários?


Onde não há clareza, a dúvida ganha espaço. Há especulações por duas razões: a primeira tem a ver com o desconhecimento da população angolana sobre os antecedentes do seu estado de saúde. A forma tão surpreendente como chegou a notícia, desequilibrou o estado emocional de todos, associado com o silêncio estranho e sombroso da equipa médica que acompanhou os últimos suspiros do malogrado. Enquanto, quem do direito joga de caracol e não vem dar esclarecimento sobre as possíveis causas do estranho desaparecimento físico do Governador da província do Uíge, a sociedade só tem uma única alternativa, que é especular, “supostamente teria sucumbido da COVID-19”.


A segunda razão, da especulação é cultural. O povo bantu, acredita que o ser humano nasce, cresce, desenvolve, reproduz, envelhece e morre. A morte de um membro da família bantu que não envelheceu, de modo especial de um jovem é a pior desgraça do povo bantu, sobretudo, quando os antecedentes de sua saúde não são acompanhados e esclarecidos. Esse tipo de morte se atribui aos poderes maléficos, associados às práticas de feitiçaria. Não se quer aqui dar fé ou duvidar que seja um problema social negligenciado, mas com consequências letais. O assunto de feitiçaria é sério e é nacional, não é portanto, um caso isolado da província do Uíge, apesar de não se ter qualquer comprovação científica. Quem já assumiu um lugar de mando no aparato do estado em qualquer nível dos ministérios, tem lembranças amargas a contar. Muitos gestores sofrem calados. Ora, isolar, acusar e classificar Uíge como porco que comeu as suas próprias entranhas, seria uma posição precipitada. A natureza do assunto, precisa de iluminantes para esclarecer. Tudo o que o ser humano bantu não consegue explicar, se é de bom, atribuí ao Nzambi yi nvangi = Deus Criador e se é de mal, atribuí ao ndoki = Satanás. E isto, quando acontece aplica-se o provérbio Kikongo que diz: «o nua wu dila kewu vayikanga ma mbote ko» = “A boca que chora, não lança boas palavras”, as especulações tem o seu enquadramento neste adágio cultural, sobretudo com carência de esclarecimento aplausível. Pois, a morte é o momento mais alto da tristeza, da pobreza e da maldição do povo bantu. Umas das características da Antropologia Cultural é justamente a dinamicidade cultural, isto quer dizer que as culturas devem abandonar as práticas nocivas, como o caso do assunto em reflexão e deve ter a coragem de abraçar novos modus operandi e facendi que promovem a cultura de ubuntu, progresso e de humanismo.


Portanto, diante do sucedido, Angola está de luto. Dr. Sérgio Luther Rescova Joaquim é filho de Angola, como cada um de nós o é. Angola está consternado, por perder um dos seus melhores filhos, esta é a verdade indiscutível. Qualquer for a causa do seu desaparecimento físico, não justifica a perda, nem minimiza a nossa dor. Está difícil acreditar, que ele deixou o mundo dos vivos. Está difícil acreditar que já não o palparemos. Está difícil dizer que a sua alma descanse em paz. Mais do que comentários, especulações e acusações desencontrados, é momento de reflexão, é momento de união, é momento de trabalho, como humilde forma de honrarmos a sua memória.